Assistência Farmacêutica

Sistema Urinário

Os rins humanos servem para converter mais de 1700 litros de sangue por dia em cerca de um litro de um fluido concentrado altamente especializado chamado urina. Desta forma, o rim excreta os produtos tóxicos do metabolismo, regulam a composição química do  meio interno por um processo múltiplo que envolve: filtração, absorção ativa, absorção passiva e secreção, mantendo as concentrações corpóreas de água e sal, o balanço ácido apropriado do plasma e ainda age como um órgão endócrino, secretando hormônios como a eritropoetina, renina e prostaglandinas. Os mecanismos fisiológicos que o rim desenvolveu para realizar estas funções, demandam um alto grau de complexidade estrutural. 

Anatomia

O sistema urinário é composto por dois rins (contendo corpúsculo renal ou de Malpighi, túbulo contorcido distal, túbulo contorcido proximal e alça de Henle), dois ureteres, uma bexiga, esfíncter que impede o refluxo de urina e conseqüentemente a infecções urinárias e uma uretra.

Cada rim pesa cerca de 150 gramas. Anatomicamente, os rins se localizam no abdome superior posteriormente ao peritôneo parietal que o identifica como retroperitoneal, estando situados à direita e esquerda da coluna vertebral, com o direito ocupando posição inferior ao direito devido à presença do fígado. Apresentam duas faces, anterior e posterior e duas bordas medial e lateral e extremidades superior e inferior. São envolvidos por uma cápsula fibrosa e, quase sempre abundantes em tecido adiposos (constituindo a cápsula adiposa).

O ureter é o tubo que conduz a urina do rim para a bexiga. Consiste de uma porção abdominal e uma porção pélvica, cada uma delas apresentando cerca de 12,5 cm de comprimento À medida que o ureter penetra no rim pelo hilo, dilata-se formando uma cavidade em forma de túnel, a pelve, da qual derivam dois ou três ramos principais, os cálices maiores.Existem cerca de 12 cálices menores no rim humano. Na superfície de corte, o rim é composto de um córtex e uma medula, o primeiro com uma espessura de 1,2 a 1,5 cm. A medula consiste de pirâmides renais, cujos ápices são chamados de papilas, cada uma relacionada a um cálice. O tecido cortical se estende para espaços entre as pirâmides adjacentes formando as colunas de Bertin. Do ponto de vista de suas doenças, o rim pode ser dividido em quatro componentes: Vasos sanguíneos, glomérulos, túbulos e interstício.

A bexiga é uma bolsa situada posteriormente à sínfise púbica que funciona como deposito de urina. A bexiga vazia de um adulto apresenta quatro faces: uma superior, duas inferolaterais e uma posterior. A última é também chamada de fundo ou base da bexiga. As superfícies superiores e inferolaterais encontram-se anteriormente ao ápice. As superfícies inferolaterais abaixo, no colo. À parte da bexiga entre o ápice, anteriormente, e a base, posteriormente, é o corpo.

A uretra é um tubo que leva a urina da bexiga para o exterior, no ato da micção. No sexo masculino, a uretra dá passagem ao esperma durante a ejaculação. No sexo feminino, e um órgão exclusivamente do aparelho urinário.

A uretra masculina apresenta cerca de 18 – 20 cm de comprimento. Inicia-se no colo da bexiga e estende-se através da próstata, dos diafragmas pélvico e urogenital, da raiz e corpo do pênis até a ponta da glande. Subdividi-se em prostática, membranácea e cavernosa ou peniana.

A uretra feminina apresenta cerca de 4 cm de comprimento e estende-se em direção inferior e ligeiramente para frente, a partir do colo da bexiga até o óstio uretral externo, que está situado entre os lábios menores e anteriormente à abertura da vagina e, também, abaixo da glande do clitóris.No seu trajeto, a uretra passa através dos diafragmas pélvico e urogenital. Ela se encontra fechada, exceto durante a passagem da urina.

Histologia Normal 

O rim é constituído pela cápsula, de tecido conjuntivo denso, a zona cortical e a zona medular.

O corpúsculo renal é formado pelo glomérulo que por sua vez, está envolvido pela cápsula de Bowman. Esta cápsula possui dois folhetos: um folheto interno ou visceral (formado por células chamadas de podócitos) e um folheto externo ou parietal (constituído por um epitélio simples pavimentoso). Além dos podócitos os capilares glomerulares possuem as células mesangiais em certas regiões de sua parede, estas células localizam-se na parede dos capilares glomerulares, entre as células endoteliais e a lâmina basal. É provável que as células mesangiais removam os resíduos que, pela filtração, ficam presos à parede do capilar glomerular.

O túbulo contorcido proximal tem sua parede formada por um epitélio cúbico simples. O citoplasma das células deste epitélio quando entram em contato com a luz do túbulo mostra microvilos que formam a orla em escova.

A alça de Henle tem uma parte delgada e uma parte espessa, formando um U. A estrutura da sua parede é formada por epitélio cúbico simples.

Quando a parte espessa da alça de Henle penetra na cortical, torna-se tortuosa e passa a ser chamada de túbulo contorcido distal, também revestido por epitélio cúbico simples.

A urina passa dos túbulos contorcidos distais para os tubos ou ductos coletores. Os tubos coletores mais delgados são revestidos pr epitélio cúbico.

A bexiga e as vias urinárias armazenam por algum tempo e conduzem para o exterior a urina formada pelos rins. Os cálices, a pélvis, o ureter e a bexiga têm a mesma estrutura básica, embora a parede se torne gradualmente mais espessa no sentido da bexiga.

A mucosa é formada por um epitélio de transição e por uma lâmina própria de tecido conjuntivo que varia do frouxo ao denso. Não há submucosa.

As células mais superficiais do epitélio de transição são responsáveis pela barreira osmótica entre a urina e os fluidos teciduais. Nestas células, a membrana plasmática em contato com a urina é especializada, apresentando placas espessas separadas por faixas de membrana mais delgada. Quando a bexiga se esvazia, a membrana se dobra nas regiões delgadas e as placas espessas se invaginam e se enrolam, formando vesículas fusiformes, que permanecem próximo à superfície celular. Ao se encher novamente, sua parede se distende e tem lugar um processo inverso ao descrito.

A túnica muscular é formada por uma camada longitudinal interna e uma circular externa. Essas camadas musculares são mal definidas.

O ureter atravessa obliquamente a parede da bexiga, de modo que se forma uma válvula que impede o refluxo de urina. A parte do ureter colocada na parede da bexiga mostra apenas músculo longitudinal, cuja contração abre a válvula e facilita a passagem de urina do ureter para a bexiga.

As vias urinárias são envolvidas externamente por uma membrana adventícia, exceto a patê superior da bexiga, que é coberta por membrana serosa (peritônio).

A uretra é um tubo que leva a urina da bexiga para o exterior. A uretra masculina é formada pelas porções: 1) prostática, revestida por epitélio de transição; 2) membranosa, revestida por epitélio pseudo-estratificado colunar e 3) cavernosa ou peniana, revestida por epitélio pseudo-estratificado colunar, com áreas de epitélio estratificado pavimentoso.

A uretra feminina é revestida por um epitélio plano estratificado com áreas de epitélio pseudo-estratificado colunar.

Fisiologia

Os rins são capazes de regular a composição química do meio externo através da filtração, absorção ativa, absorção passiva e secreção.

A filtração ocorre no glomérulo, onde se forma um filtrado do plasma sanguíneo. A absorção ocorre nos túbulos do néfron onde são absorvidas substâncias que ainda são úteis para manter a constância do meio interno e o metabolismo. Além disso, transferem do sangue para a luz tubular certos materiais, que são adicionados à urina e com ela eliminados. Os tubos coletores absorvem água, contribuindo para a concentração da urina.

Através de todo esse processo o organismo controla sua água e seu balanço osmótico.

Os dois rins formam, por minuto, cerca de 125 ml de filtrado, onde 124 ml são absorvidos e 1 ml apenas será lançado nos cálices como urina. A cada 24 horas formam-se cerca de 1.500 ml de urina.

No corpúsculo de Malpighi forma-se o filtrado glomerular ou capsular, que tem composição química semelhante a do plasma sanguíneo, porém quase não possui proteínas.

O filtrado glomerular formado passa para o túbulo contorcido proximal onde começam os processos de absorção e excreção. O túbulo contorcido proximal absorve toda a glicose e aminoácidos e cerca de 85% do cloreto de sódio e da água do filtrado. Absorve também fosfato e cálcio. Esta absorção da glicose, dos aminoácidos e do sódio é um processo de absorção ativa, isto é, que envolve gasto de energia.

A alça de Henle participa da retenção de água influenciando a concentração da urina a medida que ela flui pelo tubo coletor. A parte descendente da alça de Henle é muito permeável, permitindo a passagem livre de água, sódio e cloro, porém a parte ascendente é impermeável.

O túbulo contorcido distal é importante para a regulação do pH do meio interno. A saída de água é inibida pelo hormônio antidiurético (ADH) da neuro-hipófise. O excesso de água no sangue inibe a produção de ADH e, na flata desse hormônio, o túbulo distal torna-se impermeável a água, sendo a urina formada mais diluída. Este túbulo é muito importante para a manutenção do equilíbrio ácido-básico do sangue.

O papel do tubo coletor é de grande importância para a manutenção do equilíbrio hídrico do sangue. Este tubo também é sensível aos efeitos do hormônio ADH, influindo na composição final da urina, ajustando o teor final de água.

Coleta da Amostra 

É essencial que a citologia da urina seja realizada em urina recém-liberada, preferencialmente não na primeira urina da manhã, pois as células terão permanecido na urina durante horas, degenerando-se rapidamente.

A amostra mais útil é a da metade da manhã: três espécimes deverão ser amostrados em três dias separados, otimizando a possibilidade de detectar anormalidades.

Outra maneira de coleta é a urina de três frascos: O primeiro frasco é coletado a partir da micção inicial, contendo cerca de 10 a 30 ml que contém lavados da uretra, ao passo que o segundo frasco do fluxo do meio da urina é uma amostra da bexiga urinária. A urina do terceiro frasco geralmente num volume de 10 a 20 ml é coletada ao término da micção e pode conter secreções da próstata. A citologia pela técnica dos três fascos é informativa quanto a localização da lesão.

A cateterização uretérica tem valor para se examinar o sítio seletivo do ureter ou da pelve renal; o sítio da lesão deve ser clinicamente determinado antes de tudo.

As amostras deverão ser coletadas em vidro transparente e imediatamente enviadas ao laboratório. Se, por qualquer razão, os espécimes tiverem de se transportados, ou passarem a noite, deve-se adicionar álcool para preservar as células.

Preparo da Amostra e Métodos de Centrifugação 

A urina pode ser centrifugada a 1.500 rpm durante 5 minutos. Se a quantidade de sedimento não for suficiente, a mesma pode ser recentrifugada.

O esfregaço deve ser feito sobre a lâmina de vidro e segundo alguns autores, esta lâmina deve ser albuminizada (Takahashi). 

Coloração 

Os exames microscópicos com corantes são importantes para se evidenciar microorganismos e para se distinguir os vários tipos de células uroteliais.

São vários os tipos de coloração, porém a mais utilizada é a de Papanicolaou, pois, a mesma mantém a translucência do citoplasma, enfatizando o padrão de cromatina do núcleo.

O método de Sternheimer-Malbin é utilizado para diagnóstico de pielonefrite. A coloração de Sternheimer facilita a diferenciação de células benignas de malignas. A coloração pelo iodo é aplicável para se identificar as células ricas em glicogênio e contaminantes vegetais. A coloração acridina-laranja é um bom corante supravital, apesar de ser necessário o microscópio de fluorescência.

Aparência macroscópica da urina

A aparência da urina torna-se uma dica para as condições patológicas do trato urinário. Ela é normalmente clara e colorida por causa do urocromo. O grau de coloração depende da concentração urinária. Deve-se dar atenção a turbidez e a coloração anormal.

Turbidez: patologicamente a turbidez é determinada pelo alto conteúdo de bactérias e gotículas de gordura: 1) a cor quilosa é devida a obstrução dos canais linfáticos e o trato urinário; 2) a urina nebulosa é determinada pelo alto conteúdo de eritrócito. É importante lembrar que esta análise deve ser feita a mais rápida possível, pois, se a urina for colocada num refrigerador, a urina clara torna-se leitosa por causa dos cristais de urato.

Coloração anormal: A bilirrubina é caracterizada pela cor marrom-amarelada; O tom avermelhado anormal é obtido em várias condições, tais como, hematúria, hemoglobinúria e medicações.

Urinálise 

A urinálise compreende a contagem microscópica de eritrócitos, leucócitos, cilindros e vários tipos de células epiteliais. Fornece importantes pistas de doenças glomerulares e tubulares intrínsecas, doenças infecciosas e neoplásicas do trato urinário inferior.

Para a realização do exame, existe uma técnica chamada de Contagem de Addis, e esta é empregada para quantificar o número absoluto de células e cilindros, mas devemos lembrar que há fatores interferentes na preparação, que causam variações na técnica de contagem.

Para o propósito de padronização da urinálise, o Sistema Kova distribuído pela ICL Scientific, procura uniformizar o procedimento, que consiste:

  1. Usar um tubo plástico de centrífuga descartável e centrifugar a 1.500 rpm por 5 minutos.
  2. Inserir uma pipeta de transferência descartável com sua ponta chegando até o fundo do tubo e fixá-la bem, enquanto o sobrenadante é decantado, restando cerca de 0,02ml de sedimento de urina retido.
  3. Colocar uma gota da solução do corante de Sternheimer-Malbin (este corante é bom para distinguir vários tipos de células epiteliais) nas quatro cavidade.
  4. Colocar uma gota da amostra da pipeta na câmara juntamente com o corante, e realizar a contagem de células e cilindros no microscópio, tendo valor para interpretações de condições patológicas do trato urinário.
Componentes celulares benignos:

Para reconhecer as células presentes na urina é preciso estar familiarizado com a histologia da bexiga urinária, uma vez que a maioria das células origina-se desse órgão. Os ureteres e bexiga estão revestidos por urotélio, originalmente denominado epitélio de transição. Trata-se de epitélio estratificado, com pequenas células basais nas camadas mais profundas, células um pouco maiores nas camadas superiores e, na superfície, grandes células multinucleadas que são responsáveis, parcialmente, pelas células planas observadas em urina de homem, algumas de origem urotelial. A abundância de células planas observadas na urina feminina deve-se, geralmente, a contaminação vaginal. Porções da bexiga urinária podem mostrar áreas forradas por células epiteliais tipo colunares, secretoras de muco, que explicam as células cilíndricas e mucina, ocasionalmente identificadas na urina.

Células Uroteliais Superficiais:

Estas células mostram grande variação de tamanho e número de núcleos presentes. Os núcleos são vesiculares e mais ou menos do mesmo tamanho e forma; embora as células possam apresentar formas bizarras. O citoplasma é relativamente abundante, poliédrico ou piriforme com processos em forma de cauda. Pode ser observado vacuolização citoplasmática. A coloração vai desde verde-azulada a verde- amarronzada, com aparência de vidro fosco; seus bordos celulares têm um tom intenso, ao passo que a zona periférica aparece clara.

A ocorrência de multinucleação com dois ou três núcleos uniformes ou ovais, não é incomum nas células epiteliais superficiais (células em guarda-chuva). Também não é raro encontrar células gigantes sinciciais multinucleadas com inúmeros núcleos num citoplasma sincicial.

Células Uroteliais Profundas: 

As camadas mais profundas do urotélio apresentam células com citoplasma cianófilo, algo denso, e único núcleo redondo a ovóide. O padrão de cromatina é vesicular e o limite nuclear revela-se liso e nítido. Essas células podem comparecer isoladas no esfregaço, ou em folhetos, se o espécime foi coletado por cateterismo, uma vez que este processo arrasta folhetos de células uroteliais. É importante que o laboratório seja informado do método de coleta de urina, uma vez que urina cateterizada pode produzir grupos celulares que imitam estruturas papilares, levando ao enganoso diagnóstico de neoplasia. Ao maior aumento a estrutura nuclear suave torna-se aparente, indicando a natureza benigna das células, ainda que a relação núcleo/citoplasmática se revele alta. As células uroteliais mais maduras parecem maiores do que as derivadas das camadas mais profundas. 

Células Uroteliais cilíndricas:

            As células cilíndricas, com sua típica forma em cunha e núcleo basal, são vistas ocasionalmente, por vezes, mostrando cílios se a amostra for particularmente fresca. 

Alterações Citológicas características de Inflamação 

Lítiase Urinária

O sintoma mais freqüente de litíase urinária é a cólica renal associada à febre. Isso se deve à obstrução aguda do sistema coletor (tubo e duto coletor). Os cálculos localizados na pelve renal podem produzir obstrução intermitente do sistema coletor e, portanto, são capazes de promover dor em cólica nos períodos em que determinam a obstrução.

Citologicamente trata-se de um processo reparatório e erosivo que mimetizam alterações malignas, pois as células transicionais ou profundas com alta relação núcleo-citoplasma e com hipercromatismo. O bordo celular é mal definido, nucléolos proeminentes em núcleos pleomórficos, como em tecidos de reparo, podem-se encontrar também células multinucleadas e figuras de mitose, que simula um carcinoma papilar. É marcante a presença de eritrócitos, especialmente após a ocorrência de cólicas.

Leucoplasia 

A leucoplasia é um termo clínico que se refere a “placas brancas”, que correspondem citologicamente a metaplasia escamosa e hiperqueratose, associado clinicamente a uma irritação crônica causada por pedras, obstrução renal ou por presença de esquistossomose.

As células com hiperqueratose são anucleadas. A leucoplasia consegue ser diferenciada de um carcinoma queratinizante.

Malacoplasia 

É uma patologia rara, ocorrendo mais em mulheres de meia idade, mas isto não exclui a ocorrência em outras idades e em ambos os sexos. Trata-se de uma inflamação rara, granulomatosa do trato urinário superior; havendo uma forte associação com infecção por coliformes.

A imunodeficiência, devido a defeitos na fagocitose, resulta em uma digestão incompleta de bactérias, que acabam por cristalizar-se e formar os chamados corpos de Michaelis-Gutmann (MG) no interior dos histiócitos, dando origem a granulomas, que citologicamente são observados pela presença dos corpos MG, também conhecidos por “bull´s eye”. O esfregaço apresenta também histiócitos multinucleados e linfócitos. São raramente detectados pela urina colhida por esvaziamento vesical, mas pode ser observada em biópsias ou em lavados. Histolgicamente apresenta placas amareladas em mucosa e submucosa, além de inclusões citoplasmáticas basofílicas difíceis de visualizar, a não ser por técnicas como o Periodic acid –Schiff que é positivo quando corado pela.          

Endometriose 

Representa o crescimento anormal de glândulas endometriais acompanhadas pelo estroma endometrial em locais anormais, comumente envolvendo ovários, peritônio e, mais raramente envolve o trato urinário; sendo assim, citologicamente pode-se encontrar células endometriais, assim como em esfregaços cérvico-vaginais em êxodo. A presença destas células pequenas pode mimetizar a presença de um carcinoma pobremente diferenciado urotelial ou linfoma. 

Infecções Bacterianas 

Actinomices sp 

A presença do Actinomyces sp na urina está associado a pacientes imunodeprimidos, e em mulheres grávidas, poderá estar presente em desenvolvimento intra-uterino.

A coloração de Papanicolaou é a melhor coloração para identificar os Actinomyces sp. Possuem coloração densa, são compostos por numerosos filamentos, em forma de raios, partindo de um centro enegrecido. Causam reação inflamatória aguda e degeneração celular. As células uroteliais apresentam-se com reatividade inflamatória. 

Cistite bacteriana

A cistite bacteriana é causada pela flora fecal, particularmente pela Escherichia coli, que ocasiona uma infeccção ascendente, ou seja, a migração das bactérias pela uretra em direção à bexiga.Os sintomas clínicos mais comuns são: dor suprapúbica, disúria, urina leitosa, com odor e ocasionalmente apresentando hematúria.

Quanto á citologia, a cistite bacteriana não é específica. Nos sedimentos urinários, o número de leucócitos e hemácias varia no fundo necrótico. Há um aumento de células uroteliais exibindo alterações reativas como aumento celular, núcleo aumentado e excêntrico e nucléolo proeminente. O citoplasma poderá apresentar-se vacuolizado, e o núcleo poderá apresentar-se hipercromático, porém a cromatina estará uniformemente distribuída com contorno nuclear liso. As células estarão arranjadas em fileiras ou em pequenos grupos, ou ainda isoladas, apresentando relação núcleo-citoplasma normal ou levemente aumentada. Células degeneradas, restos celulares e eosinófilos poderão estar presentes em cistite crônica ou subaguda.

Tuberculose

A cistite tuberculosa é causada pela Mycobacterium tuberculosis, porém outras espécies como Mycobacterium avium intracellullare de disseminação hematogênica podem infectar pacientes aidéticos. É uma infecção descendente, ao contrário da bacteriana, é sempre secundária à tuberculose renal.

Os granulomas epitelióides, células gigantes tipo-Langhans multinucleadas e fundo necrótico, característicos de cistite tuberculosa, estão raramente presentes em sedimento urinário.  O diagnóstico poderá ser suspeito na presença de células gigantes epitelióides ou de Langhans, sendo presentes em 85% dos casos.

Inflamação linfoplasmocítica também estará presente.Já os granulomas epitelióides poderão estar organizados em agregados de histiócitos, com citoplasma vacuolizado, núcleo excêntrico e cromatina bem distribuída. Células uroteliais reativas também podem estar presentes.

A tuberculose na bexiga também apresentar células atípicas na urina, e a lesão tem que ser diferenciada do Carcinoma urotelial.

As alterações celulares da cistite tuberculosa são semelhantes às reatividades causadas em tratamento com BCG ou após cirurgia de bexiga. 

Infecções Fúngicas 

A cistite fúngica ocorre particularmente em pacientes diabéticos e imunodeprimidos. Outro fator predisponente inclui pacientes em tratamento com antibióticos de amplo espectro e corticóides e uso de cateteres.

A cistite aguda por Candida albicans, o agente etiológico mais comum, está associada às infecções urinárias causadas por bactérias anaeróbias ou com formação de “fungos ball” levando à uma obstrução uropatológica, em particular, em pacientes diabéticos.

Outros causadores de cistite fúngica incluem Aspergillus, Blastomyces, Histoplasma, Cryptococcus e Coccidioides, podendo ser detectado, também, em urinas simples, pricipalmente em pacientes imunodeprimidos.

A Candida sp é um agente comumente presente em urinas e é, também, um comum contaminante.

A sua presença na urina deverá ser mencionada nos laudos e sua presença em citologia urinária causará inflamação aguda, fundo sujo e reatividade celular. O diagnóstico final deverá ser liberado com uma urocultura.

A morfologia dos fungos se difere entre si: pseudo-hifas são características de Candida spp; leveduras grandes são caracterizadas por blastomicoses; quando a localização é intracelular, a característica é de histoplasmose; leveduras capsulares, grandes e claras indicam Cryptococcus.

A caracterização morfológica pode ser obtida com uso de colorações especiais, como o ácido Periódico de Schiff para Histoplasma e Mucicarmin para Cryptococcus. Para o diagnóstico de Aspergillus é preciso confirmação com urocultura.No diagnóstico deverá ser relatada a presença de fungos filamentosos, porém, sem especificação de espécie.

Numa infecção fúngica é comum encontrarmos, na citologia, hemácias lisadas, inflamação aguda, fundo sujo e degeneração celular. 

Infecções Parasitárias 

As espécies que podemos encontra num sedimento urinários são: Schistosoma spp, em especial, da espécie S. haematobium; Trichomonas vaginalis e outros parasitas como Enterobius vermicularis, Toxoplasmai gondii e Sarcobptes scabiei. Estes parasitas causam infecções em locais próximas à uretra, como por exemplo, intestino e vagina e podem aparecer no sedimento urinário por contaminação.

O Schistosoma haematobium causa uma cistite crônica, podendo levar a uma hematúria, deixando o esfregaço com aspecto degenerado, acompanhado de metaplasia escamosa e até queratinização. Também podemos observar o ovo deste parasita , que mede de 100 à 150 mm e apresenta um espícula lateral em seu ovo.

O Trichomonas vaginalis no trato urinário é raro. A transmissão é sexual e pode causar uretrite ou cistite caracterizada por disúria e, freqüentemente piúria. Em homens, normalmente, é assintomático. Em mulheres é freqüentemente associada a tricomoníase genital. Citologicamente, as alterações são semelhantes à tricomoníase cervicovaginal. Causam inflamação aguda, acompanhada de numerosos neutrófiilos, metaplasia escamosa e degeneração de células uroteliais. Hematúria é comum, porém a necrose é ausente. É comum o encontro do parasita na urina infectada. Este se apresenta medindo entre 15 a 50mm e apresenta grânulos eosinofílicos em seu citoplasma. 

Infecções Virais 

A Cistite viral é muito rara, entretanto, alguns vírus como Polyomavirus, Papilomavirus humano, Citomegalovírus e Adenovirus do tipo II, não muito freqüentes, podem ser detectados em sedimento urinário de mulheres gestantes saudáveis e imunodeprimidas.

Alterações celulares causadas por Cistite Viral:

  • Adenovírus: Apresenta uma coloração intranuclear basofílica, halo perinuclear, uma ou múltiplas inclusões intranucleares eosinofílicas com bordas mal-definidas. Inclusões citoplasmáticas multinucleadas eosinofílicas.
  • Citomegalovírus: Apresenta Células grandes, grandes inclusões intranucleares eosinofílicas, halo perinuclear. Núcleo com aspecto de vidro.
  • Herpes Vírus: Apresenta Células grandes, multinucleadas, com amoldamento. Inclusão nuclear, núcleo com aspecto de vidro.
  • Papilomvírus Humano: Presença de coilócitos.
  • Poliomavírus: Apresenta-se basofílico, com inclusão nuclear homogênea, espaço perinuclear.
Efeitos Radioterápicos 

São presentes na maioria dos relatos de tratamento radioterápico ou quimioterápico.

Agentes quimioterápicos: alguns destes causam atipias tão significativas na citologia, que podem mimetizar malignidades; outras drogas, no entanto, causam poucas atipias indicativas realmente de um processo reacional. Há drogas que são administradas intravesicalmente e agem localmente (mitomicina, por exemplo), já outras são aplicadas por via sistêmica e se concentram na urina (busulfan, por exemplo).

A ciclofosfamida (Cytoxan) é um dos agentes que se concentram na urina e que podem causar uma intensa cistite hemorrágica, além de células de reparo e regeneração. Citologicamente, as atipias marcantes são: aumento da relação N/C e formas celulares bizarras, o núcleo pode estar aumentado, hipercromático, granular e com macronucléolo, mimetizando um carcinoma de células transicionais. O citoplasma apresenta-se vacuolizado contendo restos celulares ou de leucócitos; já o aspecto do esfregaço é sujo e inflamatório.

O Busulfan (Myleran) causa alterações similares ao da ciclofosfamida, também podendo mimetizar um carcinoma.

A Mitomicina, Thiotepa e outros quimioterápicos de aplicação intravesical, tendem a diminuir em algumas semanas, se houver persistência da celularidade aumentada, sugere-se que seja a persistência do tumor.

Citologicamente promovem alterações reativas que afetam em grande parte as células superficiais (umbrella cells), o núcleo é aumentado e muitas vezes oval e de aspecto esfumaçado e contendo múltiplos nucléolos, que podem ou não estar hipercorados. O citoplasma é vacuolizado.

Bacillus Calmette-Guérin (BCG)

BCG é usado como tratamento de câncer de bexiga. Primeiramente há predomínio de neutrófilos, depois, linfócitos, histiócitos e células gigantes predominam.

BCG também pode causar reatividade epitelial, porém, o pleomorfismo nuclear não é significante. Apresenta nucléolo proeminente e cariomegalia discreta. 

Transplante Renal 

Na rejeição aguda de transplante, é iniciada com sinais clínicos de dor abdominal localizada e febre. Os sedimentos urinários mostram exsudação de grandes números de linfócitos, esfoliação de células tubulares e aparecimento de cilindros granulares dentro de uma semana após a operação.

O paciente com crise de rejeição pode apresentar ganho de peso e hipertensão arterial. Tal crise de rejeição é em sua maior parte reversível pelo incremento na dosagem de corticóide em combinação da azatioprina ou ciclofosfamida.Os achados citológicos de rejeição são:

  1. Aumento no número de eritrócitos,
  2. Aumento no número de linfócitos, (ocasionalmente com a formação de cilindros linfocitários).
  3. Aparecimento de muitas células tubulares degeneradas com cromatina picnótica e citoplasma liquefeito ou acidofílico,
  4. Presença de fundo granular sujo, contendo restos celulares,
  5. Mistura com vários tipos de cilindros,
  6. Figuras de mitose
  7. Macrófagos
  8. Presença de Cristais de Oxalato
  9. Debris celulares

A diferenciação diagnóstica resulta num processo inflamatório no trato urinário.                          

Elementos não uroteliais encontrados na citologia urinária

  1. As células epiteliais escamosas originárias da uretra são componentes celulares normais. A urina da mulher freqüentemente contém número considerável de células escamosas pela contaminação com a flora vaginal. A descamação de células escamosas ocorre em homens que receberam terapia estrogênica para o carcinoma de próstata.
  2. Corpora amilacea, derivados da glândula prostática, em urina de homens, são observados com alguma freqüência. Variam em tamanho, coram-se usualmente em azul pálido ou róseo-alaranjado, contendo laminações concêntricas.
  3. Os espermatozóides também podem ser observados em espécimes de urina, no geral acompanhados por células germinativas e da vesícula seminal.
  4. Os Eritrócitos e leucócitos neutrófilos. Os eritrócitos não são encontrados em condições normais, a hematúria é uma pista importante de manifestação de patologia renal intrínseca, desordens hemorrágicas sistêmicas e doenças extra-renais.  Os leucócitos em quantidade excedendo a um para cada célula por campo de grande aumento podem ser indicativo de processo inflamatório. O cilindro leucocitário reflete doença inflamatória renal intrínseca.
  5. Os cristais de diversos tipos são freqüentemente vistos. Podem ser cristais tipo matriz, compostos de proteínas que formam matriz orgânica. Os cristais são transparentes, porém não birrefringentes. Os birrefringentes podem ser de colesterol, oxalato, e cristais de fosfato triplo. Também podem ser identificados na presença de cálculos. Outras variedades inidentificáveis de cristais estão, geralmente presentes e podem estar relacionados à medicação. 

Referência: 

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